Quais os impactos potenciais na economia e nos mercados financeiros da ocorrência de um cenário prolongado de deflação
Quais os impactos potenciais na economia e nos mercados financeiros da ocorrência de um cenário prolongado de
deflação?
Num cenário de redução generalizada e prolongada dos preços de bens e serviços, as famílias adiam os seus consumos mais significativos, as empresas prorrogam as suas decisões de investimento e os bancos retardam os empréstimos, na expectativa de que no futuro os preços desçam ainda mais. Os agentes económicos adiam aquilo que faz crescer a economia, e com isso, também adiam os impostos que deveriam legalmente pagar, originando graves problemas para as contas fiscais do Estado.
Aqueles que se encontram numa situação de endividamento grave, o cenário complicase ainda mais. Com a desaceleração continuada dos preços na economia, os imóveis das famílias que serviam como hipoteca desvalorizam e a dívida aumenta (mas os créditos e os juros não descem) 1 .
O mesmo acontece com as dívidas das empresas que possuíam activos como garantia. Com menos consumo e menos investimento, a actividade económica retrai, os salários e o emprego também, entrando-se num ciclo virtuoso, no qual, quanto mais endividada a economia e os mercados financeiros estiverem pior será para a sua recuperação.
Se ocorrer uma verdadeira situação de deflação numa altura de crise de dívida soberana, esta poderá causar uma depressão económica profunda, dado que amplia no tempo os efeitos nefastos para a economia, como o desemprego das famílias, a insolvência das empresas, a diminuição da concessão de crédito, etc. São graves problemas e que já aconteceram nos EUA em 1929 durante o Crash bolsista e no Japão, nas últimas duas décadas, que criaram uma armadilha de dívida 2 .
Posto isto, pode-se afirmar que a deflação é uma ameaça superior à inflação para a economia e, olhando para os dados mais recentes, tanto da Zona Euro como de Portugal, há razões para preocupação 3 .
Para combater o risco de deflação, o BCE poderá recorrer a alguns instrumentos de política monetária. Este poderá mexer na taxa de juro de referência, mas também poderá injectar liquidez nas instituições financeiras ou até mesmo comprar dívida. No caso da última opção, esta levanta problemas legais uma vez que o Banco Central não está autorizado até ao momento de comprar dívida no mercado primário. É por isso que o BCE está cada vez mais pressionado a intervir para manter a estabilidade de preços (visando manter a inflação abaixo mas próxima de 2%). No dia 5 de Junho de 2014, o BCE cortou a taxa de juro de referência para o mínimo histórico de 0,15%, com o intuito de combater a descida dos preços.
1 No cenário de deflação, a taxa real é superior e isso reflecte-se nos créditos. No caso da dívida pública, torna-se mais difícil liquidar os empréstimos.
2 Após um combate de duas décadas contra a deflação, a economia japonesa está agora a caminhar para um período de recuperação. Por exemplo, em Abril de 2014, o Governo nipónico colocou o imposto sobre o consumo em 8,0% contra os anteriores 5,0%. Desde que tomou posse em Dezembro de 2012, o Primeiro-Ministro Shinzo Abe tem implementado um conjunto de medidas (estímulos económicos, política monetária expansionista e reformas estruturais) com o objectivo de tirar o país da estagnação.
3 Os números mostram que em Maio de 2014, a taxa de inflação anual na Zona Euro atingiu os 0,5%, de acordo com dados do Eurostat, uma descida face aos 0,7% registados em Abril, sendo Portugal um dos países periféricos mais vulneráveis ao problema, tendo apresentado uma inflação negativa de -0,44% em Maio, segundo o INE.
