“Entre portas e histórias”: um dia na estrada com um entrevistador do INE
No início das manhãs de fins-de-semana, estando o tablet já carregado, o cartão de identificação pendurado ao pescoço e a lista de moradas cuidadosamente estudadas. Para quem está ao serviço do Instituto Nacional de Estatística (INE), os diversos inquéritos estão longe de serem apenas um exercício teórico são, sobretudo, um contacto direto com a realidade das famílias.
“Cada porta é uma incógnita”, conta Paulo Rodrigues, entrevistador do INE. “Há quem nos receba com desconfiança, outros com curiosidade, e alguns até com vontade de conversar mais do que o questionário permite.”
Numa localidade da região Oeste, a primeira entrevista do dia começa de forma tímida. Uma família aceita participar, ainda com alguma reserva. “Explico sempre que os dados são confidenciais e que este trabalho ajuda a compreender como vivem as famílias em Portugal. Quando percebem isso, ficam mais tranquilos”, explica.
Ao longo do dia, acumulam-se histórias que dão rosto aos números. Por exemplo, uma idosa que vive sozinha e enumera, com rigor, cada despesa mensal. Um casal que partilha as dificuldades em equilibrar o orçamento face ao aumento das rendas. Um estudante que admite não ter noção sobre os seus gastos até ser confrontado com as perguntas do inquérito.
“O mais importante é perceber como o custo de vida pesa de forma tão diferente para cada família”, observa Paulo. “Para alguns, falar de rendimentos é desconfortável; para outros, revela uma certa resignação.”
Nem sempre o trabalho é fácil. Há portas que não se abrem, recusas camufladas e, por vezes, desconfiança quanto à legitimidade da abordagem. “Já me perguntaram se era burlão ou se estava a recolher dados para operadoras… faz parte. É preciso ser resiliente e saber comunicar com clareza”, admite.
Apesar dos desafios, o contacto humano é, para Paulo, a maior recompensa. “Este part-time dá-nos uma perceção muito concreta do país real. Não são apenas números, são vidas, escolhas, dificuldades e prioridades.”
No final do dia, com várias entrevistas concluídas, regressa com a sensação de missão cumprida. Cada resposta recolhida representa mais uma peça essencial para construir um retrato fiel do país, capaz de apoiar decisões económicas e políticas públicas mais informadas.
“No fundo, somos um agente facilitador”, conclui. “Entre as pessoas e os dados que ajudam a melhorar o país.”
